Não propomos a criação do inédito, mas a ação coletiva junta ao patrimônio cultural local. A falta de legitimidade de seus valores (materiais e imateriais) pela perspectiva hegemônica leva à urgência de reconhecer e proteger esses patrimônios.
É necessário reorientar a atual balança que sentencia a arte nacional à posição inferior pela lógica do Brasil-celeiro; precisamos romper com a tradição que condiciona países de terceiro mundo do hemisfério sul a servirem como exportadores de insumos e importadores de valores.
Na engrenagem capitalista, somos força de trabalho e público consumidor, mas não potência intelectual. Reduzida ao curral do mundo pelo paradigma colonial, a arte latino-americana é, como o gado, ruminante. Mastigar é preciso; digerir não é preciso.
Enquanto a cultura nacional convida à antropofagia, a produção hegemônica fagocita as mais diversas culturas para entregar o mesmo subproduto, pasteurizado e enlatado.
Suas embalagens podem mesmo variar, mas o conteúdo é servido para alimentar a conformação e a cumplicidade com os valores culturais predominantes, para os quais o consumo é o principal recurso de prazer imediato.
Defendemos, então, uma perspectiva horizontal e comum: a desierarquização da relação entre público e produção cultural.
Para isso, a premissa é a da troca constante, na qual o mesmo público que consome também propõe e cria, alimentando a cultura que a ele retorna, num processo de digestão contínua.
É preciso que o consumo seja pertencente ao rito da produção cultural como um todo, de modo que os valores possam ser usufruídos por quem os gera, promovendo uma instância fértil de geração da vida coletiva.
Na intenção de agir contra a apropriação dos valores materiais e imateriais dos patrimônios culturais, enxergamos como prioridade o fomento às potências existentes dentro de cada território, com respeito e disposição para estar presente em qualquer parte do processo a que formos convidados. Nosso propósito é fortalecer os agentes culturais locais e manter acesa a chama do gesto criativo.
Instituto Muhda · junho de 2024
Ouça o chamado que vem da terra pisada, da semente que teima em resistir sob o asfalto, do sopro ancestral que ainda agita as folhas das árvores esquecidas.
Nós não viemos inventar o novo. Que tolice! Somos sementes e honramos nossas raízes. Viemos então, desenterrar, reencontrar, ancorar. Mergulhar em águas profundas do patrimônio nosso, feito de poeira cósmica e de espírito, de vozes e silêncios, de tantos modos de coabitar Vida, que a dita civilização-civilizada faz calar. Porque a luz deles, desses consumidores de dores, esconde a monocultura de suas mentes e sementes, que mentem e apagam o que existe, apegados à sombra de suas próprias ignorâncias. É por isso, e com a mais alta urgência!, que precisamos de ReflorestarMentes.
Nossas artes, nossa cultura, têm sido reféns. Presas na balança desequilibrada de um mundo que nos quer celeiro, mas nunca pensador. Exportamos a seiva da terra, a riqueza do nosso trabalho para que a cultura do consumo as batize, commodities, a negociem em dólar e financiem seu desenvolvimento e suas guerras. Em troca?
Pacotes pasteurizados de Caramelo V, conservantes, aglutinantes, atos desesperantes! que, antes e antes...
lembrem-se...
não eram embalagens para venenos e valores ocos estes mesmos que, agora, nos atiram-pela-goela-abaixo, para que possam saborear seu foie a gras!
E quantas vezes mastigamos sem digerir?
Como o gado confinado, fomos condenados à ruminação estéril, tão estéril quanto as sementes-híbridas que nos trouxeram, enquanto a verdade da vida, foi-se-nos escapando...
E hoje, mais uma vez, dizemos em rezo alto: basta de esquecer!
Ah, vocês! Ergue os olhos e vê!
Que possamos ver com os olhos de ver, o outro!
E, por desgosto, rebeldia ou oposição, possamos nos forjar, Nós!
Todos, Nós!
Ah, tolo consumidor!
Vemos seus céus de concreto e metadados, de inteligências artificiais e bombas atômicas; promessas de um progresso em que a desinteligência natural está a contaminar tudo que na Patchamama vive.
Entendes que estás a te tornar mais eficiente em fazer o estúpido, cada vez mais rápido?
Nós, que eles esquecem, sempre fomos as sementes! Somos mais do que a força de braço; somos a potência de toda alma. Enquanto engolem o mundo, mastigam culturas diversas para cuspir um gosto único, homogêneo, insípido. Uma morte embalada com a ilusão de vacas felizes, feita para conformar, vendar e claro!, vender um prazer vazio que, quando consumido, é névoa. Nossa resposta?
Antropofagia, sim!, mas a das nossas raízes. Devolver ao estômago da terra o que nos é vital.
Desierarquizar, sim! Não aceitamos arte que é um palco para poucos, mas a roda da conversa em que todos falam, criam e transformam. Onde o público e o criador são o mesmo sopro, numa troca sem fim, numa digestão constante que gera vida, que gera coletividade. A arte é o rito; a nós, jamais produto.
Mas nosso céu, o que se ergue sobre a floresta e a aldeia, está rachado pela avareza. Fomos enfeitiçados pela melodia traiçoeira da sociedade-mercadoria, que nos vende um paraíso em prestações e nos devolve, em troca, o inferno dos desertos-verdes-híbridos, águas e comidas contaminadas; o emocional depressivo, angustiado, apático; e o da alma esgotada, afastada de anunciar a que veio, seu propósito e potência de ser...
Na fumaça de veneno que brota da chagas feridas da Patchamama, não é apenas nosso corpo que grita, mas também nosso espírito. Nossa contracultura ancestral se faz canto do pajé, na dança que sustenta o firmamento, na força de Nhanderu que nos chama a sonhar outras existências. Adiar o fim do mundo, para podermos contar mais uma história!
Nosso agir é uma luta contra toda forma de apropriação. Contra o roubo silencioso do que é nosso, do que é sagrado. Em cada território, em cada comunidade, não carência: há potências-borbulhantes-resistência! Viemos ser ponte, fogueira, para fortalecer quem já existe, quem já sabe, quem já cura. É manter viva a chama do gesto criativo ancestral, daquela arte que não se compra nem se vende, mas que manifesta o espírito, a ética de habitação, e é o pulsar da vida em si.
Pela Contracultura Ancestral, erguemos nossa voz, nosso tambor, nossa pintura, nosso rezo e nosso silêncio: Pelo protagonismo da gente originária, não por caridade, fraternidade ou solidariedade, mas por justiça! Somos os pilares de uma sociedade que ousa ser plural, onde as mil e uma formas de ser e ver o cosmos são a verdadeira riqueza, não um adereço, mas a própria estrutura de quem somos; Pelo resgate da sabedoria da natureza, porque sabíamos e sabemos viver em harmonia, enquanto o branco empilha ruínas e doenças. A cura para o colapso que se anuncia está nas folhas, nos rios, nas constelações que dos nossos ancestrais, decifravam. Somos aprendizes urgentes dessa lembrança; Pela abertura das janelas do mundo que foi escondido e que, chega de saber negado! Chega de narrativas únicas! Ampliar os horizontes não é ver mais do mesmo, é desvelar o que foi silenciado pela pedagogia, pela cultura empobrecida de valores. É garantir que o direito à nossa própria cultura seja uma realidade, e não apenas letra morta em papel distante; Pela arte que liberta, que cura, que sustenta, porque não aguentamos mais consumo. Nossa arte é a ancestral, espiritual, é a voltada para vida. É fonte de sustento digno, forjada pelas mãos que tecem a resistência. É autonomia que floresce do trabalho justo, é saúde para o corpo e para a alma da comunidade. Porque a arte, para nós, não é produto; é a respiração do próprio ser; e Pela semeadura de novas consciências e para que vocês possam se reencontrar com seus Deuses. E que sejam julgados por eles. Que nossos espaços sejam roças de partilha, onde os saberes se misturam e fecundam. Que cada encontro seja uma expansão de modo de vida. Que cada gesto gere uma transformação, pequena ou grande, individual ou coletiva, para que a sociedade que plantarmos seja consciente de suas raízes mais profundas.
ReflorestarMentes é nossa atual resposta.
Que seja mais que um projeto; seja um sopro que se espalha, uma semente que vira floresta.
Que as raízes profundas de nossa ancestralidade contracultural guiem o futuro de nossa existência, antes que o céu, de fato, nos caia sobre todas as cabeças.
Coletivo Motirõ 01 de agosto de 2025.
Coletivo Motirõ · 1º de agosto de 2025